Acho que já deu pra perceber que tenho o hábito (saudável, diga-se de passagem) de ler o blog do Juca, quase diariamente.
Pois bem, começou a Copa dos Sonhos II, que reúne um embate entre as 6 seleções brasileiras mais significativas em nossa história, sendo as 5 campeãs das Copas de 58, 62, 70, 94 e 2002, além da seleção de 82.
Funciona da seguinte maneira, todos contra todos em turno único, sendo que cada jogo é analisado por um jornalista/cronista esportivo que aponta um vencedor para o confronto, mas quem decide de fato o vencedor são os comentários dos blogonautas.
E foi aí que a coisa desandou!
Não digo com relação ao torneio em si, mas sobre a maneira que o brasileiro vê hoje o futebol. Pragmático, de resultados, ao estilo europeu de ver futebol!
O primeiro (e único até o momento) embate foi entre as seleções de 82 (Zico, Falcão, Sócrates & Cia.) e a de 2002 (Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho,… e Felipão).
Foi só sair o comentário do PVC sobre a partida, apontando uma vitória difícil por 3×2 da seleção de 82, que choveu comentários de blogonautas indignados com a vitória da seleção “perdedora”, mais especificamente, a seleção de um “perdedor”, no caso, Zico.
Primeiro, é impressionante como Zico acabou condenado pelos insucessos (em termos de resultado) das seleções de 78, 82 e 86. Como se ele jogasse sozinho e tivesse obrigação de impedir a goleada da Argentina sobre o Peru, em 78, a falha de Cerezo contra a Itália, em 82, e a cobrança do pênalti (que ele pediu pra não bater, só o fez por ordem de Telê) em 86.
Mas o que, na verdade, está implícito nisto é a condenação do futebol-arte como fracassado, ultrapassado e romântico, nada tendo a ver com o futebol de hoje, que é competitivo, vencedor, etc.
Ou seja, vem caindo por terra a teoria de que o povo brasileiro gosta do futebol bem jogado, pra frente, que glorifica seus craques pelos seus dribles, golaços, tabelas fenomenais e passes precisos que colocam nossos artilheiros na cara do gol para fuzilar o goleiro. Aquilo que Jorge Ben cantou em inúmeras canções, ressaltando a alegria do gol para o torcedor, a magia da camisa 10, etc.
Hoje é mais aceito o bom zagueiro, o esquema com 3 volantes, a proteção à zaga, a subida alternada dos laterais, sempre cobertos pelo meio-campo, o avanço ao ataque como se fosse uma tática de guerra, só na boa, explorando o erro do adversário. Não levando gol, garantimos 1 ponto, se por ventura fizermos gol, são 3 pontos, o que é importante para o campeonato, o título a qualquer preço, para posteriormente vendermos nossos “craques” por milhões de dólares para o futebol europeu, às vezes para países “tradicionais” do futebol, como a Ucrânia, visando fazer caixa para os combalidos clubes brasileiros, vítimas da desorganização promovida pelos nossos cartolas.
Essa cartolagem brasileira já apronta das suas desde que o mundo é mundo, mas o nosso futebol sempre se resolveu dentro do campo. Nossos craques sempre foram muito melhores que os nossos cartolas. Para citar como exemplo, o Santos de Pelé teve, em uma de suas excursões pelo mundo, uma de suas premiações em dinheiro que “simplesmente” caiu do avião. O Flamengo, na época de Zico, começou a ser saqueado constantemente, o que resultou hoje na maior dívida de um clube brasileiro. O Botafogo cansou de enganar o Garrincha, em virtude de sua incultura, fazendo com que este morresse sem ter muito o que deixar para os seus filhos.
Mesmo com tudo isso, quem teve a oportunidade de ver esses times em ação não tem do que reclamar. Viu o Santos, com bons zagueiros também, levar 6 gols do Palmeiras, mas fazer 7 com aquele ataque fantástico que tinha a rubrica de Pelé.
Viu o Flamengo devolver um 6×0 no Botafogo em 82, depois de 11 anos de gozação, simplesmente porque o Zico botou na cabeça que aquela faixa que a torcida do Botafogo trazia ao Maracanã desde 71 não iria mais voltar.
O Botafogo que contratou Garrincha porque Nilton Santos mandou, dizendo que nunca gostaria de ter que enfrentá-lo.
O Palmeiras que insistia em não dar seqüência aos títulos do Santos de Pelé.
Ou seja, o futebol brasileiro é recheado de histórias que, de certa forma, amenizam os maus tratos que os cartolas deram ao mesmo. Mas estas histórias estão ligadas ao bom futebol, à capacidade que o brasileiro tem de superar suas próprias dificuldades com a bola nos pés, à ginga que o samba – por amor à arte – emprestou ao futebol.
Tempos onde os craques ficavam no Brasil, não porque ganhavam dinheiro, mas porque aqui havia futebol, e jogar futebol de verdade era um desafio que os brasileiros tiravam de letra.
Mas havia uma Itália no nosso caminho. Havia o Estadio Sarriá. Havia Paolo Rossi. Pode-se dizer que este jogo em 82 foi um divisor de águas para o futebol brasileiro.
Não que a partir dali o futebol tenha mudado da água pro vinho, mas este jogo serviu como desculpa para os conservadores do futebol, os “competitivistas”.
Sempre que se justificava esquemas táticos mais defensivos usava-se como exemplo a seleção “derrotada” de 82.
“De que adianta jogar bonito e perder?”; “O povo vibra com títulos!”; e assim começava o calvário dos amantes do futebol.
Daí em diante, a imagem do técnico de futebol passa a ter uma relevância que antes não tinha. Vide 58, onde reza a lenda que Feola dormia no banco. Em 70, contam que quem falava com o time era Gerson, ao invés de Zagallo.
A memória do brasileiro deixa de recordar escalações, para recordar os treinadores. Era o São Paulo de Telê, o Grêmio de Felipão, o Palmeiras de Luxemburgo, dentre outros.
Os esquemas táticos passam a prevalecer e, em muitas ocasiões, jogam no ostracismo jogadores que poderiam ter se tornado craques.
A discussão sobre a seleção não era mais se Tostão e Pelé poderiam jogar juntos, mas se devia se jogar no 3-5-2, ou no 4-4-2, se o número de atacantes definia se o time era mais ou menos ofensivo. Só recordando, a seleção de 70 jogava com 5 “camisas 10″ em seus respectivos clubes, sendo eles Pelé (Santos), Tostão (Cruzeiro), Rivelino (Corinthians), Gerson (Fluminense) e Jairzinho (Botafogo), ou seja, não tinha nenhum atacante “de ofício”. Vai me dizer que esse time não era ofensivo?
Posterior aos esquemas táticos, vem a discussão sobre o modelo de gestão do futebol. O São Paulo introduz no futebol brasileiro a organização e planejamento de ações. Isto já é um sintoma!
Visto que o futebol se tornou um esporte onde o físico prevalece, deve-se propiciar estrutura para que o atleta não tenha problemas extra-campo. Ou seja, dá condições para que o jogador desenvolva com tranquilidade seu futebol. Mas que futebol?
Se for o visto no último Campeonato Brasileiro, obrigado, mas eu prefiro outro!
A glória do São Paulo é ter um grande goleiro que bate faltas, uma zaga quase intransponível e uma dupla de volantes que protegem a zaga com eficiência. Aliás, eficiência é a ordem no Tricolor paulista! O São Paulo virou uma Microsoft do futebol, mas se quiser também pode ser Votorantim, Sadia, Bradesco, ou qualquer outra que lucra bilhões e explora trabalhadores em nome dessa tal eficiência, ou competência administrativa, e outras bobagens do tipo. O que isso tem a ver com futebol?
É esse padrão alemão de futebol que faria com que Pelé, se jogasse nestes novos tempos, já teria pelo menos 8 cirurgias no joelho. Garrincha então, seria morto a tiros por um zagueiro enfezado que não suportasse seus dribles. O que aliás virou comum por aqui. Pra todo Kerlon fazendo “drible da foca”, há um Coelho pra tentar o homicídio.
Voltando à Copa dos Sonhos, vejo que este futebol de novo tipo praticado no Brasil vem ganhando vigor entre a torcida. A defesa do futebol bem jogado é considerada coisa de jornalista nostálgico, ou de comunista! Imaginem só, se acontece outro golpe militar no Brasil e os generais considerem subversivos os amantes do bom futebol?
Encerro com o seguinte: Tostão, ainda em atividade, teve um descolamento de retina que o forçou a parar, se jogasse hoje, teria ele mesmo arrancado os olhos pra não ver tamanha barbárie.
Abraços,
Bruno Padron (Porpetta)