A última pesquisa divulgada sobre a popularidade de Lula e seu governo, além da verificação da hipótese de uma mudança constitucional que garanta a possibilidade de mais uma reeleição, mostrou recordes de aprovação, confiança e desejo de um terceiro mandato.
Este resultado demonstra duas coisas: se equivoca quem diz que o governo Lula é igual ao de FHC, tal como se equivoca quem diz que é diferente.
O governo Lula é um governo de conciliação de classes, ou seja, ao mesmo tempo que garante lucros astronômicos aos grandes capitalistas nacionais e especuladores internacionais, também garante mínimas condições de subsistência aos mais pobres, reduzindo os índices de brasileiros nas classes D e E.
Mas devemos tratar estes dois aspectos de forma abrangente. Tanto um como outro se baseiam na estabilidade do mercado e das economias globalizadas. Não há nenhuma grande convulsão no último período que justificasse uma crise de maior escala na economia mundial. Ao contrário de outros tempos, que o país atravessou as crises do México, da Rússia e dos Tigres Asiáticos, não necessariamente nesta mesma ordem.
Os defensores do governo dizem que nossa economia está blindada contra esse tipo de crise de grande escala. Pode até estar. Mas para outros tipos de crise a resposta do governo Lula é das mais temerosas.
Lula está em uma campanha mundial em defesa dos biocombustíveis, cuja tecnologia se desenvolveu por aqui. A produção de biocombustíveis através, principalmente, da cana-de-açúcar tem gerado uma imensidão de problemas no campo. Isto porque os grandes capitalistas, de olho neste mercado emergente, estão monopolizando o espaço agrário, transformando grandes extensões de terra em imensos canaviais, que pela forma de cultivo destroem o solo e o tornam infértil para outras produções.
É uma política que se choca à idéia da agricultura familiar e multicultural, que serve para a geração de empregos no campo e para a criação de um mercado interno de alimentos, extremamente necessários à garantia de soberania alimentar do povo brasileiro, além da redução de preços dos mesmos em plena crise inflacionária mundial pelo aumento do consumo, principalmente na China e na Índia.
Na verdade, o incentivo ao plantio da cana representa um retrocesso histórico no Brasil, retomando a idéia da monocultura para exportação, idéia esta já fracassada na América Latina ao longo de sua história, causando a imensa pauperização do sul e centro do continente, que persiste até os dias de hoje.
Juntamente com o plantio da cana, enormes extensões de terra são ilegalmente cedidas às empresas de papel e celulose, em especial a Aracruz Celulose, para a plantação de eucalipto, planta nociva ao solo que provocam também o “apodrecimento” do mesmo para outros plantios e, em sendo o eucalipto uma planta resistente a vários tipos de praga, apenas uma superpraga se desenvolve nestas áreas, e a superpraga vem danificando as casas nas comunidades próximas às áreas de produção de eucalipto. Detalhe, estas áreas são áreas de quilombos e dos povos indígenas, o que torna sua ocupação pela Aracruz e outras ilegal.
O governo Lula também sustenta sua popularidade na área social. Os programas sociais do governo, seja de renda ou de inclusão à distribuição de energia e ao ensino superior, atingem problemas emergenciais dos brasileiros mais pobres, mas não atuam no sentido de emancipá-los, ou seja, não retiram os brasileiros da situação de pobreza, fazendo com que estes reúnam condições para auto-subsistência. O Bolsa Família, ao mesmo tempo que é um alento para a miséria do povo, é também uma amarra para quem recebe, pois este não pode em momento algum prescindir destes recursos. Quanto ao programa de inclusão ao ensino superior, em especial o Prouni, significa a compra de vagas no ensino privado pelo governo, dando resultados ainda mais espetaculares aos grandes proprietários da “educação” no Brasil, sem falar na discutível qualidade dos cursos inclusos no programa. Os mesmos recursos aplicados no Prouni, segundo estudos, duplicaria as vagas nas universidades públicas federais. Além deste, o governo apresentou o Reuni, que aplicar-se-á nas universidades federais. O Reuni pretende ser um programa de ampliação de vagas nas universidades públicas federais, o que em si é ótimo, mas só em si. A manutenção da qualidade de ensino nestas universidades está diretamente ligada ao aumento significativo de recursos para as mesmas. O Reuni prevê um aumento de até 100% das vagas, mas com aumento de recursos limitado à 20%. Ou seja, os recursos públicos por aluno serão ainda menores.
Mas o governo Lula, desde seu início, aposta na rasificação dos debates para prosperar sua política de conciliação com os poderosos. Desde a reforma da previdência Lula utiliza-se com maestria do senso comum presente no seio do povo para obter apoio popular às suas medidas. À época, o governo se valia do discurso que classificava os servidores públicos como “marajás” e “vagabundos” para aprovar a reforma da previdência. Contava com o apoio explícito da mídia, em especial a Rede Globo, para propagar um clima favorável à reforma. Conseguiu.
Sobre a possibilidade de um terceiro mandato, ele refuta. Entretanto seus apoiadores deixam sempre um clima propício ao debate no ar.
Por enquanto, a conjuntura vem ajudando Lula a trazer um pouco mais de conforto aos mais pobres e, por conseqüência, a aumentar sua popularidade. Mas conjunturas são como o mar, se em determinado momento carregam o barco para leste, em outro podem carregá-lo para oeste.
Por isso, até 2010 muita água há de passar por debaixo dessa ponte.
O problema não é se alguém pode ter 1, 2 ou 10 mandatos à frente do país, mas com qual política e servindo a quais interesses. Neste ponto, Lula e FHC não se diferem.
Abraços,
Bruno Padron (Porpetta)